Amazônia antes de Cabral
Por volta do ano 1.000 depois de Cristo, sociedades hierárquicas e populosas
estavam estabelecidas ao longo das margens do rio Amazonas e seus principais
afluentes.  Explorando de maneira intensiva os recursos aquáticos e desenvolvendo
agricultura nos solos férteis da várzea amazônica, aquelas populações
desenvolveram complexas instituições sociopolíticas e uma rica cultura material.  
Pesquisas arqueológicas recentes têm demonstrado que sociedades extensas,
hierárquicas e sedentárias ocuparam também a terra firme, fazendo parte de
complexas redes de troca à longa distância.  As trocas uniam as sociedades
amazônicas e estabeleciam contatos que explicam as semelhanças culturais entre
elas, expressas principalmente na produção da cerâmica e na arte rupestre.  
Objetos e instrumentos de pedra, como machados de basalto e granito e adornos
de jadeíte e nefrite circulavam como bens de prestígio, unindo as elites indígenas
regionalmente.
Arqueologia da Ilha de Marajó
A cultura Marajoara começou a ser estudada desde o
final do século XIX, quando viajantes e naturalistas
tomaram conhecimento da cerâmica funerária que era
encontrada enterrada em grandes aterros artificiais.  Os
primeiros arqueólogos a estudar aqueles sítios foram os
americanos Betty Meggers e Clifford Evans que,
impressionados com a cerâmica altamente elaborada e
de ótima qualidade, e com a monumentalidade dos
aterros construídos pelos índios, sugeriram, nos anos
1950,  que aquele povo teria migrado dos Andes.  Hoje
entende-se que a cultura Marajoara originou-se
localmente, a partir de um processo de mudança cultural
que ocorreu entre as comunidades que já habitavam a
Ilha desde há 3.500 anos atrás.  
Urna Funerária
Cultura Marajoara
Uma série de datações radiocarbônicas permitem situar o período de maior
crescimento e expansão da cultura Marajoara entre os séculos V e XIV,
colocando-a como a mais antiga fase da tradição polícroma amazônica, um
estilo cerâmico caracterizado por uma cerâmica cerimonial altamente elaborada
em forma e decoração (pintura preta e vermelha sobre branco, bordas ocas,
uso de técnicas de modelagem, incisão e excisão), encontrada associada a
enterramentos secundários e contextos rituais.
Os sítios arqueológicos típicos da Fase Marajoara caracterizam-se pela
construção de monumentais aterros formados a partir de solo estéril
arenoso retirado do leito de cursos d’água próximos ou das imediações
do terreno, formando camadas intercaladas por estratos de ocupação
contendo pisos de argila queimada, fogueiras, abundantes fragmentos de
cerâmica e enterramentos.  As poucas escavações arqueológicas bem
documentadas levadas a efeito nesses aterros-cemitério no passado,
contrastam com a grande quantidade de cerâmica cerimonial retirada
por saqueadores e arqueólogos de fim-de-semana desde o final do
século XIX, que fazem parte atualmente de impressionantes coleções
públicas e particulares no Brasil, Estados Unidos e Europa.  O bom
estado de preservação da cerâmica no ambiente tropical, em contraste
com a escassez de outros tipos de dados, faz com que os
remanescentes cerâmicos sejam uma fonte privilegiada de informações
sobre a cultura Marajoara e as culturas pré-históricas amazônicas de
modo geral. No entanto, a ausência de registro sobre os contextos
deposicionais impõe limites sobre o caráter e alcance das inferências
que se podem construir a partir de coleções museológicas.
Aterro Belém,
localizado às
margens do rio
Camutins, está
coberto por
vegetação densa, o
que torna difícil
perceber sua altura
Tanga cerâmica, momentos
depois de ter sido encontrada
dentro de urna funerária (ao
fundo) na área de
enterramentosdo aterro Belém,
rio Camutins.
Práticas Funerárias

Dados obtidos através de escavações arqueológicas indicam que os mortos
eram enterrados em diferentes tipos de urnas, antropomórficas ou não,
decoradas ou não, de vários tamanhos e formas, atestando tratamento
diferenciado, como esperado para sociedades hierárquicas. Alguns “sub-
estilos” identificados dentro do estilo característico da cerâmica Marajoara
parecem estar relacionados a diferentes regiões dentro do domínio da cultura
Marajoara, assim como a diferentes períodos cronológicos.

Os escavadores notaram que as urnas eram enterradas juntamente com outros
objetos cerâmicos, como banquinhos, estatuetas, tangas, pratos, tigelas, vasos,
vasilhas em miniatura, e em alguns casos objetos líticos como machados de
basalto e adornos diversos.  Um padrão repetidamente observado consiste no
enterramento de ossos desarticulados, que teriam sido previamente pintados
de vermelho, e então colocados dentro da urna de acordo com alguma ordem
pré-estabelecida. O crânio teria sido colocado no fundo da urna, justamente
sobre uma tanga decorada; os ossos longos, então, teriam sido colocados em
seguida, antecedendo os menores. Objetos de cerâmica são comumente
encontrados dentro ou ao lado da urna. Alguns parecem ter sido colocados
sobre a superfície, uma vez que é provável que as urnas tenham sido
enterradas somente até a borda, e então cobertas por uma tampa (geralmente
uma tigela decorada invertida), que restava então visível sobre o chão da casa.

A cultura Marajoara não pode ser confundida com a sociedade Marajoara.  
Apesar de existirem semelhanças culturais em termos de organização do
espaço físico, técnicas arquitetônicas e construtivas, tecnologia de fabricação
cerâmica e estilos decorativos, há diferenças importantes entre as comunidades
identificadas com essa cultura.  A sociedade Marajoara parece ter estado
dividida em regiões, politicamente relacionadas, mas administrativamente
independentes.  Existiriam então um certo número de cacicados, ou unidades
políticas internamente hierárquicas, que dominavam sobre determinadas
regiões.  No contexto geral, estes cacicados competiriam por prestígio e
poder, dentro de uma estrutura supra-regional cujo funcionamento ainda não
compreendemos bem, dada a falta de pesquisas.
Estatueta
Foto de Carlos Mora
Foto de Carlos Mora