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| Gênero |
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| Estudos de gênero praticamente não existem em Arqueologia Amazônica. Desde que começamos a trabalhar com o tema, notamos que não apenas poucos pesquisadores estão conscientes da importância de incorporarem uma perspectiva de gênero em seus trabalhos, como também as fontes financiadoras que se pode buscar para desenvolver uma pesquisa com uma abordagem de gênero são limitadas. |
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| Incorporando Gênero na Pesquisa Arqueológica Gênero é uma dimensão importante da identidade social, definindo papéis sociais, econômicos e políticos para os indivíduos. Consequentemente, se queremos entender a maneira pela qual uma sociedade estava organizada, precisamos considerar também o gênero das pessoas envolvidas. Na pesquisa arqueológica, uma perspectiva de gênero modifica a maneira pela qual avaliamos a distribuição de artefatos e feições culturais, revelando padrões sociais que muitas vezes passam desapercebidos na pesquisa tradicional. Em arqueologia amazônica, gênero tem aparecido apenas nos estudos iconográficos. Muitas pessoas acreditam que certos temas não podem ser investigados na Amazônia, por causa da baixa visibilidade arqueológica dos sítios na floresta tropical, devido aos processos de deterioração que afetam principalmente materiais orgânicos tais como ossos, artefatos e moradias. Apesar disso entendemos que a construção de perguntas de pesquisa e o uso de métodos adequados de investigação são os instrumentos necessários para investigar gênero em arqueologia, o que pode ser feito em qualquer sítio arqueológico. Atualmente, Sheila Mendonça de Souza, Denise Schaan e Ândrea Santos estão investigando as práticas funerárias verificadas durante a escavação de uma área de enterramentos do aterro Belém, localizado na Ilha de Marajó. Um dos objetivos deste projeto é descrever os remanescentes ósseos nos seus aspectos morfológicos, incluindo a definição do sexo biológico dos indivíduos, e comparar estas informações com os rituais funerários (oferendas, objetos associados e urnas funerárias). Com estes dados, podemos estudar a maneira pela qual aquela sociedade comportava-se frente à morte e reconstituir diversas instituições sociais, incluindo as relações de gênero, pois as sociedades humanas geralmente replicam no contexto funerário as relações que existiram durante a vida. Os resultados dessa pesquisa serão importantes para a definição do papel das mulheres no processo produtivo, vida cerimonial, e poder político. |
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| Gênero e Práticas Funerárias As práticas funerárias investigadas no aterro Belém indicam a associação de enterramentos femininos com tangas (veja abaixo) e pequenos potes cerâmicos, o que poderia sugerir que as mulheres estavam encarregadas da produção de cerâmica. Ambos os objetos veiculam informação sobre gênero e papéis sociais. Se as análises ósseas confirmarem que as urnas funerárias decoradas com símbolos femininos realmente continham indivíduos do sexo feminino, o alto número de mulheres em relação ao número de homens pode indicar que as mulheres rmereciam ritos funerários especiais e que tinham um alto status naquela sociedade. Os desenhos de símbolos femininos e outros desenhos geométricos nas urnas funerárias devem também ter veiculado informação sobre sua linhagem. A associação destes desenhos com esqueletos femininos e a ausência de desenhos nas urnas masculinas pode indicar que a genealogia seguia a linha materna, como sugerido por Anna Roosevelt. |
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| Urnas com características femininas são abundantes nos aterro-cemitério Marajoara. |
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| Através da informação disponível, parece seguro sugerir que a sociedade Marajoara era matrilineal, algo que dificilmente é identificado arqueologicamente. O estudo em andamento da cerâmica doméstica e cerimonial proveniente dos aterros pesquisados trará outros dados sobre o processamento de alimentos e atividades diárias que possibilitará a identificação das atividades realizadas por mulheres no sítio. A comparação dos dados obtidos em M-17 (Aterro Belém) com dados coletados em outros sítios possibilitará o entendimento das relações entre aterros habitados pela elite e aqueles habitados por pessoas comuns. Empregar gênero como um componente importante da investigação tem nos ajudado a perceber diferentes aspectos da organização social e compreender as diferenças de status em um contexto mais amplo. |
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| Tanga pintada |
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| TANGA, a vestimenta feminina Tangas são peças cerâmicas triangulares e côncavas, semelhantes às tangas feitas de fibras vegetais usadas por índias amazônicas. No entanto, o uso da argila para confecção de tangas é raro. O único caso conhecido é o das tribos Pano do rio Ucayali, onde meninas usavam uma tanga cerâmica de formato oval durante um certo período da puberdade (Relatado por Métraux, Meggers e Evans 1957). Entre as tangas Marajoara, as diferenças em tamanho, proporção e curvatura indicam uma variabilidade que estava relacionada à anatomia feminina. Furos nas extremidades das tangas eram feitos para a introdução de um cordão, com o objetivo de ajustar a peça ao corpo. |
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| As tangas Marajoara eram produzidas em dois tipos básicos. O mais comum consistia na aplicação de um engobo vermelho e polimento da superfície, resultando em um vermelho forte e luminoso. O segundo consistia na aplicação de um engobo branco, sobre o qual os desenhos eram pintados, comumente usando tintura vermelha e em alguns casos preta. Pelo fato das tangas pintadas com desenhos serem mais raras e mais impressionantes, poderíamos ser levados a pensar que elas eram destinadas a mulheres mais importantes, ou que eram usadas apenas em ocasiões especiais. Nossa pesquisa sugere, no entanto, que as tangas pintadas eram usadas por meninas e as vermelhas por mulheres adultas. |
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| Observe os três principais campos decorativos da tanga (as cores foram adicionadas para dar ênfase, não são as cores reais) |
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| Entendendo o Simbolismo das Tangas Diversos estudiosos notaram que a variação nos desenhos das tangas seguia certas regras, possivelmente de importância simbólica. Meggers e Evans (1957) sugeriram que os padrões teriam significados religiosos e sociais, e Schaan desenvolveu esta idéia, estudando a iconografia das tangas. Denise sugere que os três campos decorativos, como vistos acima, veiculam mensagens específicas. A faixa superior informaria sobre a idade (puberdade), a segunda faixa se relacionaria à linhagem (onde se observa os padrões da serpente mitológica), e o terceiro campo decorativo se relacionaria à família ou grupo social ao qual a moça pertencia. Os estudos desenvolvidos com as tangas até agora tem indicado sua importância em termos de gênero, idade e status social. A constante presença de fragmentos de tangas nos sítios arqueológicos, portanto, permite a identificação da presença de mulheres e o estudo de suas atividades. |
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