Habitantes da Ilha de Marajó
escavam urnas arqueológicas
milenares para usar como
recipiente para água que
coletam do rio.
Esta prática reflete não
apenas a falta de informação
sobre o valor histórico e
cultural das peças, mas
também as condições
miseráveis em que a maioria
das populações amazônicas
vivem, sem dinheiro para
comprar recipientes de
plástico ou metal.
Preservando as Culturas Pré-Coloniais
A cerâmica Marajoara é tida como um símbolo do Estado do Pará, porque representa a cultura nativa da região.
Motivos copiados da cerâmica arqueológica podem ser encontrados por toda a parte, decorando ruas, prédios,
estádios de futebol, sendo utilizados por vários tipos de negócios, desde o artesanato até Bancos. No entanto, apesar
de todo esse prestígio que a cultura Marajoara parece ter, pouco se fala sobre os estudos e a preservação dos sítios
arqueológicos.
Os remanescentes arqueológicos são importantes justamente porque através deles podemos conhecer o passado e
buscar as origens de nossa cultura. Infelizmente, a história dos objetos se perde quando estes são retirados de seu
contexto, no sítio arqueológico. Assim como os primeiros exploradores durante o século XIX desenterravam as peças
de cerâmica para levá-las para museus, muitas pessoas, brasileiros e estrangeiros, retiraram objetos de cerâmica dos
aterros indígenas durante o século XX pensando que, desta forma, estariam preservando a cultura pré-histórica. Como
resultado, temos hoje belíssimas coleções que, por mais agradáveis que sejam aos nossos olhos, contêm pouca
informação sobre os ceramistas que as produziram.
A preservação dos sítios arqueológicos não é apenas importante para que os arqueólogos de hoje e do futuro possam
estudá-los e desta forma possamos conhecer melhor nosso passado. A preservação é importante porque, com os
avanços tecnológicos que vêm acontecendo, é provável que no futuro novos métodos de pesquisa sejam
desenvolvidos, tornando esse estudo mais eficiente e menos destrutivo. Exemplo disso são as técnicas de prospecção
geofísica, ainda relativamente pouco utilizadas, que permitem que se identifiquem feições arqueológicas em subsolo sem
que se necessite escavar todo o sítio. Da mesma maneira, no futuro, novos métodos permitirão revisão dos
conhecimentos que hoje se possui, desde que parte dos sítios seja preservada para estudo.
Exploração Ilegal de Sítios Arqueológicos
Os mais importantes aterros da cultura Marajoara, alguns com mais de 12 m de altura, foram sistematicamente
destruídos pela retirada desordenada e criminosa de peças. A coleta começou ainda no século XIX, e intensificou-se
durante a segunda metade do século XX. No entanto, a destruição atingiu proporções assustadoras justamente após a
criação de leis de preservação ao patrimônio arqueológico. Vendo que poderiam, no futuro, encontrar dificuldades em
dispor das peças, proprietários de fazendas no Marajó e pessoas por eles autorizadas começaram a escavar os aterros
para desenterrar as urnas funerárias milenares e vendê-las no Brasil, Estados Unidos e Europa. Atualmente, existem
muitas coleções de cerâmica nas mãos de particulares, a maioria elas sem o devido registro no Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional, apesar de ser assim requerido por lei.
Futuro Sustentável
Durante milhares de anos, populações humanas ocuparam a Amazônia, desenvolvendo técnicas não-destrutivas de
subsistência, manejando recursos florestais, utilizando-se do seu conhecimento da natureza para produzir remédios,
para controlar as populações animais e para cultivar o solo. Parte dos conhecimentos por eles desenvolvidos é hoje
preservada por grupos indígenas, mas sua organização social, suas estratégias de subsistência, suas práticas de uso e
manejo do solo se perderam. Seu modo de vida, no entanto, pode ser estudado pela arqueologia, de forma que
possamos utilizar os conhecimentos gerados por nossos antepassados em nosso próprio proveito. Basicamente, os
povos pré-históricos amazônicos podem nos ensinar maneiras mais integradas e menos destrutivas de exploração
dos recursos naturais.
Nesse sentido, a arqueologia pode contribuir significativamente, não apenas contando a história do passado, mas
utilizando-se desse passado para refletir criticamente sobre o presente e ajudar a planejar o futuro. Espera-se que a
cerâmica indígena pré-histórica não seja apenas admirada pelas suas qualidades estéticas, mas que proporcione a
ligação tão necessária entre os povos do presente e sua origem, ajudando a construir uma identidade social e cultural
que pode, efetivamente, melhorar e transformar a vida das populações amazônicas atuais.
