Pesquisas de Campo
As pesquisas de campo de Denise Schaan na
Ilha de Marajó iniciaram-se em 1997, como
parte dos Estudos de Impacto Ambiental para a
construção da Hidrovia do Marajó.  Em 1997,
realizou-se uma prospecção na área de impacto
direto do empreendimento, quando identificou-se
a existência do sítio PA-JO-49: Cacoal,
localizado exatamente na área de embocadura do
canal de ligação a ser construído entre os rios
Anajás e Atuá.  Na época, decidiu-se alterar o
projeto do canal, mas mesmo assim,
desenvolveu-se uma pesquisa de salvamento no
sítio em dezembro de 1998.  Cacoal foi
considerado um sítio tardio da cultura Marajoara,
ocupado entre 1.300 e 1.650 A.D.
Em 1999, escavou-se outros seis sítios arqueológicos localizados na área de
impacto da Hidrovia (PA-JO-50: Rio Branco, PA-JO-51: Saparará,
PA-JO-52: Casinha, PA-JO-53: Vista Alegre, PA-JO-54: São Benedito e
PA-JO-55: Leal).  Juntos, estes sítios representam 1.300 anos de ocupação na
área (de 300 a 1600 A.D.), registrando ocupações contemporâneas, anteriores
e posteriores ao período de maior desenvolvimento cultura Marajoara.
Ao mesmo tempo em que se concluíam as pesquisas de Salvamento
Arqueológico realizadas no rio Anajás, iniciou-se o Projeto Anajás, cujo
objetivo era o estudo em nível regional das ocupações pré-históricas na região
do alto rio Anajás, Ilha de Marajó.  Verificou-se que a maior parte dos sítios
localizados na região pertenciam à Cultura Marajoara, relacionada a uma
sociedade que se encontrava organizada sócio e politicamente em nível regional.
 Por esse motivo entendeu-se que somente um estudo que levasse em conta as
interações políticas, econômicas e culturais entre as populações que habitavam
os diversos sítios poderia responder a questões relacionadas a processos de
mudança cultural que se observavam para toda a região.
Schaan pesquisou os sítios localizados ao longo do rio Anajás e seus tributários
Em julho de 2000, com financiamento do Instituto Earthwatch e
colaboração de voluntários e bolsistas do Museu Goeldi, escavou-se o
sítio PA-JO-52: Casinha, localizado na região do médio/alto rio Anajás.  
Essa pesquisa teve como objetivo investigar áreas de atividade e sua
relação com artefatos no espaço intra-sítio, com o intuito de comparar
com outros sítios previamente conhecidos e aqueles que viriam a ser
estudados.  Apesar do sítio ter sido investigado em 1999 como parte do
projeto de salvamento da Hidrovia do Marajó, ele não foi intensivamente
estudado por não estar na área de impacto direto do empreendimento.
Entretanto, dado o fato de ser um sítio da fase Marajoara em área de
floresta e distante dos aterros cerimoniais do alto curso do rio,
considerou-se que um estudo mais demorado seria de grande importância
para o entendimento da hierarquia regional dos assentamentos.  
Identificou-se ali áreas domésticas e áreas de enterramento.  Amostras de
carvão permitiram datar a ocupação entre 600 e 1.200 A.D.
Na primeira metade de julho de 2001, com financiamento do
Departamento de Antropologia e do Centro de Estudos
Latino-Americanos da Universidade de Pittsburgh, realizou-se uma
prospecção no sítio PA-JO-15: Camutins.
Silvinho, escavando
urna funerária no sítio
Casinha, 1999.
A pesquisa de campo consistiu em identificar e mapear os aterros da fase
Marajoara localizados ao longo das margens do igarapé (pesquisados
anteriormente por Meggers e Evans, 1957; e Hilbert, 1952). Foram visitados 26
dos 30 aterros localizados na Fazenda Maravilha e os dois localizados na
Fazenda Santa Águida, com o objetivo de medir sua área, altura e fazer a
localização com o GPS.  No aterro Camutins foi realizado um levantamento
topográfico.  Durante o trabalho, identificou-se 28 aterros que fazem parte do
grupo de 37 descritos por Meggers e Evans (1957) e Hilbert (1952). Os aterros
visitados foram medidos em sua altura e área aproximadas e foram realizadas
algumas observações sobre seu estado de preservação.  Foi realizada também
localização precisa do curso do rio com GPS, assim como a plotagem em mapa
dos aterros localizados às suas margens. Percebeu-se que os aterros estão
concentrados em três diferentes secções do rio. No baixo Camutins
encontram-se dois grandes aterros cerimoniais (Camutins e Belém), ambos
tendo ao seu lado dois aterros menores (respectivamente Camutinzinho e
Arraial). No médio curso do rio encontram-se 10 aterros-habitação.  No alto
curso do rio encontram-se aterros cerimoniais e de habitação.

Na segunda metade de julho de 2001, novamente com voluntários e
financiamento do Earthwatch Institute, realizou-se escavações estratigráficas na
parte ainda intacta do aterro Camutins. Todas estas escavações localizaram-se
próximo aos limites oeste do aterro, às margens do igarapé, onde os depósitos
estavam mais intactos. Percebeu-se que, devido às escavações anteriores
realizadas por amadores e pelo próprio proprietário, para busca de peças de
cerâmica, o aterro estava muito destruído.  Além disso, algumas partes do
terreno estavam cobertas por uma camada de solo de terra preta, de variada
espessura, com muitos fragmentos de cerâmica, resultado das perturbações em
busca de peças e descarte de peças quebradas e sem decoração. Durante as
escavações foram identificados pisos de argila queimada que são parte da
estrutura construtiva do aterro, assim como camadas de carvão e um
enterramento, de onde foram coletadas amostras para datação.  As quatro
datações radiocarbônicas obtidas mostram uma ocupação contínua que vai de
600 A.D. a 1.100 A.D.

De setembro a outubro de 2002, o Projeto Anajás teve continuidade através do
desenvolvimento de projeto de pesquisa financiado pela Fundação Nacional de
Ciências dos Estados Unidos (NSF).  Durante aquele período, foram realizadas
prospecções e coletas de superfície nos aterros do igarapé dos Camutins que
não haviam sido pesquisados em 2001.  Além disso escavou-se o aterro Belém,
o segundo em hierarquia no grupo dos Camutins, localizado em frente ao aterro
1.  Estudou-se as estruturas construtivas do aterro, escavando-se também áreas
domésticas e uma área de enterramentos.  A escavação nessa área de cemitério
foi concluída em novembro de 2002, com financiamento e ajuda de voluntários
do Instituto Earthwatch.  Estudou-se 23 enterramentos; os dados coletados
devem permitir conclusões sobre organização social, gênero, e período de
ocupação do sítio, além de um melhor entendimento da estrutura sociopolítica na
área durante a pré-história.

Resultados preliminares das pesquisas referentes ao Projeto Anajás foram
publicados na Revista Britânica Antiquity, em 2000, e apresentados no
Congresso da Sociedade de Arqueologia Americana e no Congresso da
Sociedade de Arqueologia Brasileira em 2001, assim como no Congresso da
Sociedade de Arqueologia Brasileira - SAB, em setembro de 2003.  Resultados
finais da pesquisa são parte da
Tese de Doutorado defendida em agosto de
2004.


Dentro dos objetivos específicos do projeto, buscava-se entender a relação
entre os grupos de aterros localizados nas cabeceiras do rio Anajás e no
Igarapé dos Camutins, e os sítios encontrados ao longo do rio.  Inicialmente foi
realizada prospecção nos aterros do sítio PA-JO-15: Camutins, no igarapé dos
Camutins.  Em março de 1999 foram visitados o aterro Cuieiras e o aterro nº
16 (contagem de Hilbert 1952), onde foi realizada coleta de superfície e
constatada a quase completa destruição de ambos pela retirada de peças.  No
aterro Cueiras escavou-se uma urna funerária que encontrava-se parcialmente à
vista, presa entre as raízes de uma árvore.  No aterro principal do grupo
Camutins, escavou-se um perfil estratigráfico com 2,20m de profundidade, de
onde foi coletado carvão e fragmentos de cerâmica. O material carbonizado
proporcionou as primeiras datações radiocarbônicas absolutas para esse sítio:
750 A.D. (nível 1,15 m)  e 850 A.D. (nível 2 m).
Escavações no aterro Belém
( M-17), em 2002.